— Deus morreu! O menino fechou a porta.
Estávamos reunidos assistindo A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, em 2005. As cenas eram fortes e, para proteger o imaginário infantil, decidimos deixar as crianças em outro cômodo. Mas um dos mais curiosos não resistiu: abriu a porta, viu Jesus morto e declarou a plenos pulmões — Deus morreu.
Este é o escândalo dos escândalos. A ninguém é exigida a inteligência plena desta revelação. Como o imortal é executado pelo mortal? O justo punido pelo injusto. O santo vencido pelo pecado. O amor pelo ódio. A vida pela morte. O eterno confinado num sepulcro. O silêncio de Deus.
A mente não comporta. As emoções não equacionam.
A verdade é que, se pela nossa limitada inteligência fosse possível compreender completamente o cristianismo, estaríamos em desgraça. Ele carrega em si aspectos incompreensíveis — que nos conduzem à rendição, ao encontro e à fé.
Deus encontrará fé na terra?
Creio que o menino estava certo. O Deus Filho, Jesus de Nazaré e homem — morreu. Quando esta revelação escandalosa me arrebatou, a vida ganhou sentido, paz e esperança.
Ele morreu. E foi exatamente aí, no escândalo da cruz, que comecei a viver.

