Um novo limiar se apresenta em nossos dias: o surgimento de uma terceira idade produtiva. Com o aumento da expectativa de vida e a maior preocupação com o cuidado pessoal, muitos chegam a essa fase com mais autonomia e energia.
Já foram cumpridas algumas etapas da vida — carreira, criação dos filhos e certa estabilidade material. Surge, então, um momento fértil para a reinvenção: um curso de cântico, uma nova formação ou vocação, um novo negócio.
Mas isso só ocorre se a pessoa tiver guardado algum “crédito de vida” nas etapas anteriores.
É certo que essa possível reinvenção se depara com a consciência da vulnerabilidade e com a percepção mais nítida da finitude. Nesse ponto, o tempo se torna mais palpável, e a pessoa precisa rever o sentido da vida, agora sem os mesmos papéis sociais de antes.
Nesse tempo, olha-se mais para a essência do que para a aparência.
Nessa contabilidade, os papéis eventualmente se invertem: aqueles que dependeram de você na juventude são, muitas vezes, os que estarão ao seu lado na velhice.
Mas isso depende, em grande medida, de como eles foram tratados. A forma como cuidamos provavelmente se refletirá na forma como seremos cuidados.
Não é uma regra infalível, mas é a normalidade da conta.
Se você foi uma pessoa atenciosa, presente, participativa e amorosa, provavelmente colherá essas atitudes na velhice.
Por outro lado, se foi egoísta, mesquinho, autocentrado e rancoroso, a conta pode chegar pesada à sua mesa.
A velhice reabre o roteiro da dependência; por isso, é um teste ético e relacional daquilo que você investiu ao longo da vida.
Há, portanto, um balanço na terceira idade.
Pode-se acumular um patrimônio de sabedoria, histórias e memórias que inspiram e conectam.
Ou, ao contrário, carregar dívidas pesadas, regadas por ressentimentos, mágoas e frustrações.
E, nesse caso, se o idoso não reparar ou ressignificar o seu passado, corre o risco de ficar aprisionado nele.
Por fim, o entardecer da vida traz as suas perdas.
No início da existência, acumulamos sonhos, amores, bens, carreira e formação. Temos a força da juventude para avançar e conquistar.
Porém, na velhice, essa potência se esvai. Alguns ideais são abandonados, a mobilidade se restringe, e pessoas amadas — que faziam parte do laço existencial — partem.
Nesse tempo, o indivíduo deixa de buscar realizações no palco da vida e passa a refletir e integrar a própria história interior.
O mundo, antes vasto, dá lugar a um espaço menor: você e aqueles que lhe são verdadeiramente preciosos.
É verdade que o modo como vivemos a juventude e a maturidade pavimenta a velhice.
Mas não se pode esquecer que, nesse momento da vida, surge um grande desafio: encontrar sentido quando o mundo começa a desvanecer.
E, diante desse desafio, podemos nos apoiar em uma verdade bíblica:
“As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos,
porque as suas misericórdias não têm fim;
renovam-se cada manhã.
Grande é a tua fidelidade.”
(Lamentações 3:22-23)
A cada novo dia existe uma nova possibilidade, porque sua vida é alvo da misericórdia e da fidelidade de Deus.
Portanto, faça as reparações que forem possíveis, e não permita que o amanhã seja paralisado pelo medo, pela dor ou pelo más escolhas do passado.
Tenha fé e viva, com gratidão, os dias que Deus lhe conceder.

