Ortodoxia Desalentadora

Sou um cristão. Creio na suficiência da Bíblia. Nela encontrei Jesus Cristo e a tenho como norte de fé e conduta. A Palavra ilumina a jornada. Percebo, no entanto, que a Teologia por vezes é usada de forma equivocada diante da tragédia humana.

Já leu o livro de Jó? Aquele de quem o próprio Deus afirmou ser “homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal” (Jó 1:8). Você deve conhecer a história. Uma tsunami varreu tudo: os filhos, os bens, a saúde. Três amigos vieram visitá-lo na intenção de levar consolo. Só que suas palavras foram para Jó como derramar álcool nas feridas. Eles eram adeptos de uma teologia ortodoxa, onde os argumentos se baseavam exclusivamente no princípio bíblico da semeadura e colheita. Estes são verdadeiros e não devem ser desprezados. Mas foram equivocadamente aplicados à pessoa errada. Jó não estava colhendo o sofrimento por causa do pecado. Deus repreendeu duramente os amigos: “… A minha ira se acendeu contra ti, e contra os teus dois amigos, porque não falastes de mim o que era reto” (Jó 4:7). Jó não plantou vento e colheu tempestade. Este ditado não é uma explicação lógica para todas as tragédias vividas por nós e por outros. 

Diante do sofrimento humano, precisamos aprender a silenciar e orar. Cuidemos para que a nossa ortodoxia não se transforme em palavras vãs e afiadas diante da dor. O sofrimento de Jó trazia nos bastidores uma batalha importante. Em um mundo espiritual invisível aos olhos humanos, Deus empenhou sua confiança na fidelidade de Jó. E, como sempre, o Todo Poderoso mostrou que tinha razão: Jó provou que é possível amar o Senhor apesar das duras perdas desta vida. “Deixe que o seu cristianismo seja menos uma teoria e mais um caso de amor” G. K. Chesterton. Há mais mistérios nos propósitos do sofrimento do que a ortodoxia é capaz de explicar.

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