“Além dessas coisas exteriores, há o que pesa sobre mim diariamente: a preocupação (merimna) com todas as igrejas.”
(2 Coríntios 11:28)
No Novo Testamento aparece o vocábulo μέριμνα (merimna), que pode ser traduzido por “preocupação” ou “ansiedade”. Essa palavra deriva de merizō (“dividir”), significando uma mente dividida, uma inquietação interior.
No contexto desta passagem, a “preocupação” parece legítima, pois está vinculada ao cuidado pastoral com as igrejas. Surge, então, a pergunta: toda ansiedade é pecaminosa?
Creio que não.
A ansiedade, muitas vezes, nasce como algo legítimo — um sentimento que nos conduz ao cuidado e à responsabilidade.
Minha filha sofreu um acidente — farei tudo o possível para cuidar dela. → Cuidado.
O jovem está prestes a fazer o ENEM — ele estuda, se organiza e fica atento para não perder a prova. → Responsabilidade.
Nesse sentido, a ansiedade pode ser benéfica, pois nos impulsiona a agir com zelo.
Outra forma de ansiedade que exerce um papel importante é aquela que aparece diante de grandes desafios ou pressões. Essa apreensão pode nos ajudar a ficar em alerta, a avaliar riscos e a lidar com as implicações do que enfrentamos.
Lembro-me da imagem do Senhor Jesus no Getsêmani:
“E, afastando-se deles como a distância de um tiro de pedra, ajoelhou-se e orava, dizendo: Pai, se queres, afasta de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, mas a tua. Então lhe apareceu um anjo do céu, fortalecendo-o. E, estando em agonia, orava com mais intensidade; e seu suor tornou-se como gotas de sangue caindo sobre a terra.”
(Lucas 22:41-44)
Horas antes de enfrentar a cruz, o Salvador experimentou agonia e se derramou diante do Pai para receber forças e cumprir sua missão. Lucas, com sua pena sensível, ressalta a humanidade de Jesus, o Nazareno.
Seres humanos são visitados por diversas emoções — o grande desafio é o que fazemos com elas.
Todo sentimento vivido à revelia de Deus — seja ira, medo ou tristeza — tende a se distorcer.
Até emoções consideradas boas podem perder seu centro:
A alegria pode tornar-se superficialidade;
O amor, dependência emocional;
A compaixão, culpa salvadora.
Percebe? Todo sentir que gravita para longe da presença do Pai tem o potencial de tornar-se pecado.
Voltando à ansiedade… quando ela se torna pecado?
Quando assume proporções tais na mente do cristão que se transforma em incredulidade (“Deus não pode agir em meu favor”) ou em autossuficiência (“Não preciso da ajuda de Deus”).
Mas, quando a ansiedade é derramada na presença do Pai, ela pavimenta o caminho da fé.
“Não andeis ansiosos por coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas diante de Deus as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças.”
(Filipenses 4:6)
Pergunto-me por que este verso se tornou o principal argumento na discussão sobre a pecaminosidade da ansiedade. Não existem outras passagens no Antigo e no Novo Testamento que tratem desse sentimento? Claro que sim.
Talvez porque, ao contrário de outras emoções, a ansiedade expõe de modo direto a tensão entre confiança e controle.
Quando alimenta a desconfiança em Deus, torna-se pecado; mas quando é reconhecida e levada a Ele em oração, transforma-se em comunhão e dependência.
E acredito que, pelo contexto da carta, esta é a principal lição que Paulo quis transmitir à igreja.
Paulo escreve essa carta preso, e mesmo assim busca agradecer e encorajar os discípulos de Jesus a continuarem firmes, enfrentando lutas, medos e incertezas.
Dois versículos antes, ele afirma:
“Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: alegrai-vos.”
(Filipenses 4:4)
Sejamos sinceros: estamos sempre alegres no Senhor?
Quando sofremos uma calúnia ou perdemos alguém querido, nossas emoções são de tristeza e dor — e isso não é pecado. É a condição humana.
A tristeza não é falta de fé.
O sofrimento mais lúcido é aquele que não é reprimido, mas transformado em oração de lamento na presença de Deus.
Jesus chorou diante do túmulo de Lázaro.
Em suma, a ansiedade não é, em si mesma, pecado — é um sinal.
Pode revelar tanto a fragilidade humana que precisa de tratamento quanto o coração que precisa descansar na confiança em Deus.
É importante distinguir entre duas realidades distintas, embora frequentemente confundidas.
Primeiro, há a ansiedade comum da vida, aquela inquietação que nasce de um coração que tenta controlar o que pertence a Deus. Esse tipo de ansiedade é espiritual, pois revela uma luta de fé: o coração se vê dividido entre confiar e temer, entre descansar e assumir o controle.
Por outro lado, existem os transtornos clínicos de ansiedade, que não têm sua raiz primária na esfera espiritual, mas em alterações neuroquímicas, disfunções fisiológicas ou experiências traumáticas que afetam o sistema nervoso.
Nesses casos, o sofrimento não é fruto direto da incredulidade, mas de um corpo ferido — um corpo que também geme, como toda a criação, à espera da redenção (Rm 8:22-23).
Aqui, o chamado não é à culpa, mas ao cuidado integral: apoio espiritual, acompanhamento terapêutico, e, tratamento médico adequado.
A graça de Deus não nega a ciência; antes, manifesta-se também por meio dos meios humanos que promovem alívio e restauração.
Portanto:
A ansiedade tem muitas faces.
É uma emoção pertinente à condição humana.
Quando bem administrada, ajuda-nos diante dos desafios da vida.
Não é necessariamente pecaminosa.
Torna-se pecado quando alicerçada na incredulidade e na autossuficiência.
E não podemos esquecer: até o cérebro humano geme pela redenção, podendo adoecer e vivenciar um transtorno clínico de ansiedade.
Em todos os casos, é importante lembrar o conselho do apóstolo Pedro:
“Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós.” (1 Pedro 5:7)
Como diria um antigo professor de exegese bíblica do Novo Testamento: “Toda quer dizer toda.”
Seja a doença do seu pai, a prova do concurso, o término de um relacionamento ou a consulta médica — qualquer que seja o motivo da sua ansiedade, Deus está disposto a recebê-la.
“Pois ele conhece a nossa estrutura e sabe que somos pó.” (Salmo 103:14)

